Fui promovido
Estou num momento que na época em que ocorreram foram abraços e beijos, mas hoje se revelam (agora os jargões funcionam) divisores de águas.
Quem não tem um momento assim? Que parecia nada e hoje é nossa pedra de salvação?
Uma única vez abracei meu pai com aquela vontade que achamos ser possível existir entre um filho e sua figura paterna. Ele estava deitado na cama após ouvir minhas desculpas.
Percebi (também chorando, sempre discreto, sempre) que aquela era uma daquelas situações de “leia o livro, veja o filme e escute o disco”. Um momento único, uma virada de sentidos e sentimentos, a minha queda do Muro de Berlim, o ataque a Hiroshima, a descoberta da roda, o suicídio de Getúlio e, o atentado a Torres Gêmeas.
Munido dessas informações e com muito "feeling", parti para o conflito. E o pior: meu pai levava vantagem por estar em seu campo de batalha.E lá estava ele. Deitado. Aparentemente descansando após ter jogado diversas munições verbais em minha direção.
Após ter conquistado diversas frentes e estraçalhado grande parte de minhas tropas, o general deixava os pensamentos tortos e a carcaça esquecida no lençol de seu leito. Ao lado, apenas a mulher, ciente da tragédia que estava por vir.
Parei de chorar e acordei soldado por soldado. Mandei todos se vestirem silenciosamente. Selei pessoalmente cada cavalo. Montamos. Ordenei que todos jogassem as armas de fogo ou brancas. Iríamos de peito aberto. Sem nada temer. Sem nada esconder. Pedi para um deles carregar uma bandeira branca, caso encontrássemos resistência. O caso não era matar ou morrer. Era apenas morrer. E renascer outro.
Invadi a fortaleza e de súbito me joguei embaixo da pesada coberta. Depois do Cavalo de Tróia, essa certamente foi a maior surpresa recebida por um grande estrategista.
Ao me ver desarmado, ele me abraçou. Eu retribui o suposto carinho. A mãe passou a observar a cena como um bom juiz faria. O pai e eu começamos a chorar. De ambos os lados, os pedidos de desculpas por uma guerra inútil.
Passamos a noite abraçados e contando os mortos. Havia muito o que reconstruir. Os excessos de ambos os lados foram perdoados e viraram objetos de escárnio. O paterno virou fraterno. Eu não era mais filho. Tinha sido promovido a homem, a general.
Foi a única vez em que abracei e chorei com meu pai daquele jeito que assistimos nos filmes. A única. E só isso, algo tão miserável e ordinário, valeu por toda uma vida de confissões e obrigações. Eu disse "eu te amo" e ele retribuiu com as mesmas palavras. Um único gesto que salvou a vida de milhares de pessoas.
E fomos embora.
Quem não tem um momento assim? Que parecia nada e hoje é nossa pedra de salvação?
Uma única vez abracei meu pai com aquela vontade que achamos ser possível existir entre um filho e sua figura paterna. Ele estava deitado na cama após ouvir minhas desculpas.
Percebi (também chorando, sempre discreto, sempre) que aquela era uma daquelas situações de “leia o livro, veja o filme e escute o disco”. Um momento único, uma virada de sentidos e sentimentos, a minha queda do Muro de Berlim, o ataque a Hiroshima, a descoberta da roda, o suicídio de Getúlio e, o atentado a Torres Gêmeas.
Munido dessas informações e com muito "feeling", parti para o conflito. E o pior: meu pai levava vantagem por estar em seu campo de batalha.E lá estava ele. Deitado. Aparentemente descansando após ter jogado diversas munições verbais em minha direção.
Após ter conquistado diversas frentes e estraçalhado grande parte de minhas tropas, o general deixava os pensamentos tortos e a carcaça esquecida no lençol de seu leito. Ao lado, apenas a mulher, ciente da tragédia que estava por vir.
Parei de chorar e acordei soldado por soldado. Mandei todos se vestirem silenciosamente. Selei pessoalmente cada cavalo. Montamos. Ordenei que todos jogassem as armas de fogo ou brancas. Iríamos de peito aberto. Sem nada temer. Sem nada esconder. Pedi para um deles carregar uma bandeira branca, caso encontrássemos resistência. O caso não era matar ou morrer. Era apenas morrer. E renascer outro.
Invadi a fortaleza e de súbito me joguei embaixo da pesada coberta. Depois do Cavalo de Tróia, essa certamente foi a maior surpresa recebida por um grande estrategista.
Ao me ver desarmado, ele me abraçou. Eu retribui o suposto carinho. A mãe passou a observar a cena como um bom juiz faria. O pai e eu começamos a chorar. De ambos os lados, os pedidos de desculpas por uma guerra inútil.
Passamos a noite abraçados e contando os mortos. Havia muito o que reconstruir. Os excessos de ambos os lados foram perdoados e viraram objetos de escárnio. O paterno virou fraterno. Eu não era mais filho. Tinha sido promovido a homem, a general.
Foi a única vez em que abracei e chorei com meu pai daquele jeito que assistimos nos filmes. A única. E só isso, algo tão miserável e ordinário, valeu por toda uma vida de confissões e obrigações. Eu disse "eu te amo" e ele retribuiu com as mesmas palavras. Um único gesto que salvou a vida de milhares de pessoas.
E fomos embora.
Comentários