Mulher resolvida

Não há nada pior do que uma mulher bem resolvida. Claro, qualquer um que se acha bem resolvido é um tijolo de pretensão. Mas a pequena que espalha por aí que descobriu a fórmula da felicidade é, além de um porre, uma desesperada por atenção.

Vou explicar os fatos e as circunstâncias para não ser chamado de amargo ou rotulado com alguma linha filosófica alemã.

Outra noite, escutei durante horas o papo de uma donzela bem resolvida. Ela não estava na minha mesa nem bebericando do meu uísque. Mesmo a alguns metros de distância, era impossível não notar a sua empáfia e seus gestos de conquistadora. Ela estava contando para o homem - que quase dormia a sua frente - como o mundo parecia belo e sem problemas.

O que escutei foi assustador. A Mulher Bem Resolvida explicava suas equações para chegar ao nirvana, mostrava que não tinha nenhum problema ou dificuldade, duvidava da existência de dúvidas, xingava aqueles que não são tão iluminados quanto ela e se alimentava de pratos orgânicos e estranhas combinações de vegetais batidos com leite.

A Mulher Bem Resolvida simplesmente não precisava de mais ninguém. Ela se bastava. Não havia mistério que ela não tivesse resolvido, como um Padre Quevedo de saias e tornozelos depilados.

Ora, mas a vida é sonho, já diria La Barca, e mistério. Muito mistério.

A graça desse negócio todo é trocarmos experiência (e alguns fluidos) e nos enchermos de dúvidas sobre o mundo. Pode existir coisa mais encantadora do que encontrar aquela fêmea toda confusa, tomada de dramas e tormento, igualzinho a você?

Não peço aqui para nos afundarmos em miséria e desespero, mas temos tanta coisa para aprender, durante tantas horas e tantos dias, que fica difícil (impossível, vá lá) espalhar por aí o esquema tático da alegria.



Em certo momento, meu espanto com a Mulher Bem Resolvida foi tanto que peguei um papel e anotei tal disparate proferido por aquele hálito de fogo: “Já saquei tudo. Não preciso de mais nada ou ninguém. É tão bom quando você se encontra assim, livre, sem preocupações, vivendo da melhor maneira, sem sofrimento, sem amarguras. Você precisa fazer tudo o que eu faço. Bye, bye, tristeza. Eu sou bem resolvida”.

E seguiu com a sua ladainha, pregando soluções, conselhos e metáforas baratas.

No fim, ela estava tão bem resolvida, mas tão bem resolvida, que só falava dela. Tinha esquecido o parceiro de papo (provavelmente um sujeito normal, ou seja, que não tinha soluções pra nada).

A pequena ficou lá, mergulhada num redemoinho egocêntrico. Tanto que seu companheiro de mesa se levantou e foi ao banheiro. Pra nunca mais voltar.

A Mulher Bem Resolvida esperou por dez minutos e então começou a chorar. Limpou os olhos com um guardanapo amassado, pisou fundo no desamor e partiu.

Já eu continuei quieto, matando com gosto um resto de uísque nas pedras. Confuso, tristonho e pouco resolvido com tudo, mas pensando naqueles que permanecem ao meu lado e me ajudam a enfrentar esse caminho cheio de bifurcações e nenhuma placa.

Boa sorte.

Comentários

Unknown disse…
Texto seu ou alguma licença poética?
Nossa, fiquei surpresa com o bom-humor.

Q sejam felizes as mulheres bem-resolvidas !

E viva aqueles que se afundam nos problemas!!!!!

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