FAÇA A COISA CERTA - Spike Lee
Termo derivado do latim imago (imagem), imaginário designa aquilo que provém da imaginação, com a capacidade de representar coisas em pensamento, independentemente da realidade. O imaginário é a matéria-prima do trabalho de psicanalistas, poetas, artistas, sendo um conceito caro a todos os ofícios dependentes da criação, da criatividade. De certo modo, podemos supor que todos os fazeres humanos dependem de uma instância imaginária, na trajetória de transformação de idéia em ato, na criação de um sentido. (Maria Helena R. Junqueira é doutora em Comunicação e Cultura, professora da ECO/UFRJ e psicanalista.)E o simbólico o que seria então? A função simbólica consiste na capacidade de diferenciar o significado do significante: o significado é a coisa e o significante é aquilo que representa a coisa. Assim, a criança que constrói sua função simbólica vai poder, graças a essa diferenciação, lidar com a representação da coisa, ter uma idéia de como funciona essa coisa. Exemplo: Um menino poderá continuar a jogar bola mesmo após ter terminado o jogo. Isto é, vai fazer de conta que está jogando.
No filme de Spike Lee – Faça a Coisa Certa - o relacionamento entre o imaginário e simbólico fica evidente e também intimamente relacionado. Temos de um lado a imagem do “prefeito” que sem nenhuma autoridade simbólica ainda assim exerce poder imaginário. Essa autoridade é um tanto quanto conturbada pois, segundo o filme ele é um “bêbado”, “mendigo”, enfim, alguns rótulos imaginárias.
Do outro lado temos a figura da polícia que exerce o poder simbólico, as leis, regras pré-determinadas que devam ser seguidas. Em vários momentos a polícia se colocava em uma posição de “aliviar as tensões”, quando as questões imaginárias transcendem os limites do bem-estar coletivo.
O imaginário e o simbólico estão intimamente ligados, e precisam estar. A falta de algum ponto referencial poder ser bastante complicada uma vez que não se saberia ao certo onde cada indivíduo poderia ir. Assim como seu excesso, do que já é arbitrário, pode tornar-se autoritário.
E essa relação íntima tem um momento que passa despercebido. Uma cena em que os três homens negros (sobre aquela parede vermelha) devaneiam sobre a vida, repleta de citações imaginárias quando a polícia passa com seu carro. Os agentes trocam olhares carinhosos e mandam um beijo para os homens ali sentados. O beijo é uma imagem de intimidade criando assim esse elo. (Isso seria somente uma visão acerca da relação do filme com as questões imaginárias e simbólicas).
O grande mérito de Faça a Coisa Certa é a forma explícita com que se apresentam problemas facilmente encontrados em qualquer local onde convivam várias raças diferentes. O estranhamento, e conseqüente preconceito são inevitáveis. Poucos filmes conseguiram este feito. O filme dá o que pensar e dificilmente o espectador fica sem fazê-lo. Ele é quem deve tirar suas conclusões e tentar entender quem, afinal, é o culpado - se é que ele existe. Nessa função conciliatória, a mídia tem um papel pífio que pouco pode intervir na opinião das pessoas.
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