Lula entre atos

O filme de João Moreira Salles retrata uma imagem, do então candidato a presidência da república, na maior parte, desconhecida para o grande público. Independentemente da visão política de cada espectador, o diretor mostra um Lula mais humano, mais próximo das camadas populares.
Os últimos 15 dias que antecedem uma eleição são os mais tensos de uma campanha política. Moreira Salles queria gravar somente as três semanas finais da campanha para o segundo turno mas surgiu a possibilidade do candidato Lula ganhar já no primeiro turno, o que fez a equipe decidir antecipar as gravações.
A câmera filmadora teve uma liberdade fundamental no documentário, flagrando cenas interessantes, por exemplo, o momento no cabeleireiro, as brigas com os fotógrafos, conversas sobre as estratégias políticas. Mas isso foram apenas curiosidades, ainda que naturais, não pareciam serem reais.

O Lula sabia que estava sendo filmado e, portanto, se portava de uma maneira mais contida. Um documentário não mostra a realidade e sim uma representação dela. Como podemos saber se aquele realmente era o Lula ou o que ele queria mostrar ser.
Sem dúvidas é um filme excepcional pois revela algo mais próximo da realidade. Mostra mais do que o esperado porém não tanto quanto poderia. Isso fica claro em cenas como a das conversas entre o dep. Candidato Aloísio Mercadante e Lula que se trancaram dentro de uma sala.
Outro momento em que fica evidente uma “encenação” é quando, no avião, Lula discursa sobre política externa, sobre o Walessa. Do avião tinham os assessores, e os membros da equipe de filmagem. Dos assessores, quem ainda não ouvira aquela história? E a equipe? Então para quem Lula quer mostrar que sabe sobre o assunto? Ao espectador.
Contudo, o imaginário que o filme trabalha é de um Lula carismático e bem-humorado, transformando, assim, aquela visão de “radical-esquerda”. Há momentos de boas risadas: “O palácio é triste por que o Fernando Henrique não joga bola, não dança, não toma uns gole”. É esse tipo de comentário que cria um laço dele com povo de forma quase inconsciente. E nisso o Lula tem se definindo um grande comunicador. Quem sabe um dia possa competir com Abelardo Barbosa, o Chacrinha, e Sílvio Santos.
Infelizmente, podemos também perceber o quão próximo estavam alguns personagens dos últimos escândalos que envolveram o PT. José Dirceu, Duda Mendonça, Antonio Palocci, Luis Gushikein. O filme foi lançado em 2004 e, por não saber qual seria a repercussão que poderia gerar, principalmente depois desses fatos, Moreira Salles optou, em 2005, cancelar a distribuição. Mas essa discussão não faz parte do filme.
Porém, mais do que apresentar todas estas facetas de Lula, "Entreatos" explora também o que é uma campanha política no Brasil. Disseca a importância do marketing político, o dia-a-dia e as constantes viagens, a importância de pequenos detalhes, a preparação para debates. Apenas por este lado "Entreatos" já seria um documentário essencial para quem se interessa por política, mas consegue ir além justamente por ser Lula o personagem-tema. Caso fosse Serra, Garotinho, Ciro Gomes ou qualquer outro candidato, provavelmente o documentário mostraria o mesmo cotidiano. Mas, com Lula, ganha-se uma importância maior justamente pelo que ele representa. E isto não é algo apenas teórico, é perceptível no próprio documentário, pela reação das pessoas comuns, não ligadas à campanha, quando encontram com Lula. Talvez o maior exemplo disto seja o do carona no avião - um fato tão surreal que fica até mesmo difícil imaginar acontecer com qualquer outro candidato que não seja Lula.
Por tudo isso "Entreatos" é um excelente documentário. Possui diversas situações hilariantes, provocadas justamente pelo bom humor do próprio Lula, e é revelador em várias questões políticas. Pode-se perceber, por exemplo, a importância que hoje possui vários integrantes do governo apenas pela sua aparição e participação na campanha política. E é também interessante por constatar as mudanças ocorridas naquele grupo, de quando ganhou as eleições até hoje, já governando o Brasil, dois anos após a campanha. Essencial para quem gosta e acompanha a política nacional."

Comentários

Anônimo disse…
É, Gustavão,
há sempre duas caras de qualquer político: a que ele quer mostrar ao público e a que ele tem realmente.
A primeira, vemos todos os dias, embora vejamos, com um pouco de atenção, que ela não verdadeira, e a segunda, é aquela que somente se vê pelos atos REAIS daqueles que nos mostram sempre a face "simpática" para atrair nossos votos.

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